Novos Renault Megane e Laguna GT
É tempo de mudar?04-01-2009
 
 
Diz a publicidade que já lá vai o tempo em que isto e aquilo e que agora é tempo de mudar, referindo-se ao novo Mégane, modelo que por motivos comerciais é a menina dos olhos da Renault.
Juntámos a este uma jóia da coroa da marca do losango, a versão GT da Laguna, e fomos ver se é ou não tempo de mudar!



É sabido como a publicidade tem por objectivo suscitar a atenção do consumidor e apurar a sua apetência de compra, sem que a noção de verdade esteja forçosamente associada às mensagens veiculadas.Todos nós já fomos confrontados com publicidade enganosa e já nos deixámos influenciar por produtos que, depois de adquiridos, vieram a revelar-se bem diferentes, para pior, claro está, daquilo que era anunciado.A publicidade não é feita por conhecedores do produto mas antes por copy-writers que criam uma mensagem nova e a adaptam ao alvo da campanha – assim, a sua missão passa claramente por omitir as características menos favoráveis do que se pretende vender (pela simples razão de que, se o fizesse, se perderia de imediato o seu impacto e se afastariam à partida muitos potenciais compradores…) e por realçar as características que seduzam e ajudem a vender.No caso em apreço devo dizer desde logo que a mensagem “é tempo de mudar” e sobretudo a forma como é transmitida parece demasiado dirigida para um público-alvo que exclui o cliente tradicional Renault e que se pretende principalmente ir buscar clientes de outras marcas já que chegou o tempo de mudar.Por outro lado, ao veicular esta mensagem, a Renault parece querer dizer de forma implícita que, anteriormente, esse tempo não tinha ainda chegado ou seja, que até agora não era tempo de decidir mudar para a marca francesa, o que é de certa forma um tiro no pé.Pese embora a ligeireza com que hoje se aceitam as coisas e se bebem as palavras, talvez seja um bom exercício pensar um pouco naquilo que nos querem transmitir…Lembro-me a esse propósito de um texto fabuloso de Eça de Queirós, escrito em meados do século 19, em que ele analisava a leviandade com que se aceitam verdades e se absorvem mensagens sem sequer nos darmos ao trabalho de nelas pensar. Dizia o prodigioso artífice da língua portuguesa: “Em todos os séculos se improvisaram estouvadamente opiniões: em nenhum, porém, como no nosso, essa improvisação impudente se tornou a operação corrente e natural do entendimento. Com excepção de alguns filósofos mais metódicos, ou de alguns devotos mais escrupulosos, todos nós hoje nos desabituamos, ou antes nos desembaraçamos, alegremente, do penoso trabalho de reflectir.”Que actualidade a destas palavras – e é isso que estamos hoje aqui a fazer consigo, a dar-nos ao penoso trabalho de reflectir.Sendo “tempo de mudar”, isso significa que aquilo que conhecemos ou que temos é susceptível de mudança e que essa mudança se vai revelar benéfica se for no sentido de optar pelo novo Mégane.Vejamos então com que atributos recheou a Renault o seu novo rebento que possam fazer mudar para ele.Menos radical, mais consensualAo suceder a um modelo que ficou longe de ser consensual, e que foi a segunda geração do Mégane, o novo carro da importante gama média, responsável pelo grosso das vendas juntamente com o Clio, teve como primeiro grande objectivo ser mais do gosto de toda a gente e apresentar mais um ar de família da marca, propondo-se pela sua estética menos radical a um mais vasto leque de compradores, indo buscar inspiração um pouco aqui e ali como se fosse de alguma forma a síntese daquilo que o mercado propõe adocicado com um toque de modernidade.A dúvida que nos assalta é se a Renault não terá ido longe demais nessa preocupação legítima de conseguir bons resultados a todo o custo, o que os franceses chamam “réussir”, e se o resultado final tem a chama suficiente para pegar fogo, para entusiasmar – não os seus habituais clientes, mas os das outras marcas, aqueles para quem terá chegado o tempo de mudar!Falamos obviamente dos clientes Peugeot ou Citroën em França e dos clientes Ford Focus, Opel Astra, VW Golf (e de outros com menor dimensão) em todos os mercados europeus.O novo Mégane está mais como os demais – entre Focus, 308 e Astra o estilo reproduz-se com fluidez de linhas e com uma sensação útil de um veículo compacto, gordinho e bem construído.Exteriormente não há nele quase nada que faça clik, por oposição ao anterior em que havia clik a mais, e será preciso optar pela versão coupé de 2 portas para encontrar um estilo muito personalizado e bem diferenciador do resto da gama, muito conservadora.Se é tempo de mudar isso deve-se então ao que se esconde, ao que não se vê, às virtudes intrínsecas do novo Mégane – e entre essas há a realçar o espaço interior, a capacidade da bagageira, superior aos 400 litros e muito larga, e a qualidade dos materiais utilizados por exemplo no painel de bordo, com um design muito fluido e agradável.Orgulhoso também da sua pontuação máxima nos testes de colisão EuroNCAP, de resto uma qualidade que quase toda a gama Renault pode hoje reivindicar, o Mégane é um carro seguro, protector e amigo quer do seu condutor quer dos peões.Facilidade de acesso ao interior, boa visibilidade dianteira mas não exemplar a visibilidade traseira, devido aos pilares C de dimensões generosas e muito inclinados, posição de condução sem reparo.Painel de instrumentos misto, ou seja, conta rotações analógico com a zona limite de rotações em amarelo, o que não me parece de gosto, um círculo central com indicadores digitais por tracinhos e com os números da velocidade em grandes dimensões, também discutível, e ainda um rectângulo à direita com informações do computador de bordo. Muito bem apresentada a zona central do painel de bordo, este em material dúctil e agradável ao tacto, aquela destinada à climatização, ao som e aos comandos do sistema de navegação que se aloja em cima, mas demasiado proeminente – dá sempre ideia que não cabia e que foi acrescentado.Não percebi por que raio as saídas de ar centrais têm moldura negra e as laterais têm moldura cinza claro tipo alumínio.A versão ensaiada e decerto uma das mais vendidas no nosso país dispunha de um já conhecido motor dCi de 105 cavalos ligado a uma caixa de 6 velocidades.A frio o motor ouve-se bem, a quente ouve-se acima das 3000rpm e porque a 2ªvelocidade é muito curta, em cidade esgota bastantes vezes e tem que se viver com este incomodidade sonora. Em estrada a potencia do motor 1.5 sem ser brilhante permite prestações de nível aceitável e sobretudo consumos muito interessantes, revelando-se sóbrio nos seus menos de 7 litros de média.A direcção com assistência eléctrica comunica bastante bem com o condutor, os travões nunca se cansaram mesmo se solicitados com frequência e a suspensão, independente à frente e de eixo de torção atrás, um sistema muito caro à casa francesa, revelou-se confortável e eficiente, amortecendo bem as irregularidades do piso e garantindo níveis de segurança dignos de registo, interagindo muito bem os dois eixos e transmitindo confiança ao condutor além de proporcionar viagens relaxantes e tranquilas.Bem construído, espaçoso, com um óptimo porta bagagens, frugal e confortável, amorfo mas talvez consensual no estilo exterior, o novo Mégane pode representar uma opção alternativa aos tais clientes de outras marcas a quem a publicidade diz ser tempo de mudar – não sei se é suficiente o que mostra para se mudar, mas é suficiente para não desiludir aqueles que optem por mudar.Laguna GT, versão topNo segmento acima, a Renault propõe uma versão fogosa e radical do seu familiar Laguna, disponível em Berlina ou em Estate.Aquilo que defini como um estilo amorfo sob o ponto de vista estético no Mégane, aplica-se por inteiro no Laguna, que em nossa opinião não traz também nada de inovador ou de chamativo nesse domínio – uma vez mais e parafraseando os franceses não há “coup de foudre” quando se olha a gama Laguna, efeito que se mitiga mais no caso da carrinha.Este conservadorismo exterior não encontra correspondência no que se pode encontrar no interior – aqui regista-se uma evolução muito considerável nos materiais e no estilo do painel de bordo, de linhas muito fluidas e muito bem desenhado e de um modo geral a opção foi a de oferecer qualidade e bem estar a bordo.A nova geração do Laguna foi acompanhada por várias intervenções ao nível do grupo propulsor e a versão GT do modelo representa de algum modo o supra sumo entre a oferta disponível por agora – motor de 2 litros diesel com um concentrado tecnológico que garante 180 cavalos de potência, aliados a uma caixa de 6 velocidades, a pneus 225/45/18 que até há bem poucos anos só equipavam veículos tipo Porsche, a travões de discos com diâmetros de 30 e 32 cm e ventilados à frente, a suspensões marcadamente desportivas nas suas afinações, e a um chassis Active Drive de eixo traseiro direccional que foi desenvolvido pela Renault Sport.Este eixo (4RD) funciona a dois tempos – abaixo dos 60 km/hora as rodas traseiras viram no sentido oposto às da frente e até um ângulo máximo de 3,5º e a partir dessa velocidade no mesmo sentido das rodas dianteiras e até um máximo de 2,0º - este sistema de quatro rodas direccionais permite que a Laguna GT curve como se sobre carris já que a precisão de condução é muito melhorada e a reacção da direcção muito mais directa e o “feeling” muito mais preciso.O binário disponível de 400 Nm desde as 2000 rpm e ate quase as 3750 rpm dos 180 cavalos de potencia máxima permite um conforto excepcional de condução, ajudado pela caixa de 6 velocidades muito precisa e fácil de engrenar – a força do motor é uma constante e a subida de regime faz-se num ápice. Veja-se que a GT demora menos de 30 segundos no quilómetro de arranque e faz 8,5 segundos dos 0 aos 100 km/hora, o que faz dela uma criatura temível.Destaque merece o volante, que não é redondo, em baixo é achatado lembrando um volante de competição, e que tem um diâmetro ideal. Pelo contrário, a posição de condução poderia ser melhor já que apesar de todas as afinações o condutor fica sempre demasiado alto em relação ao painel de instrumentos.Bancos de pele, GPS muito evoluído, som de qualidade, dois escapes traseiros, completam um package que faz da GT uma Laguna capaz de honrar o carácter desportivo da marca francesa.Para uma destas, é sempre tempo de mudar. Pena que quem fez a frase, talvez nem saiba porquê…
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